sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dica de leitura: Vidas Secas - Graciliano Ramos


Com o objetivo de movimentar este meu blog, começarei a publicar, ao menos uma vez por semana, uma dica de leitura.

Começo hoje com esta excelente obra de Graciliano Ramos, um dos maiores autores da literatura nacional: Vidas Secas, obra que mais uma vez figura na lista do vestibular da Fuvest.
Com o estilo enxuto das palavras, sem muito rebuscamento, seco, típico de Graciliano, o livro conta a história de uma família de retirantes, obrigadas a se mudar constantemente por causa da seca. O estilo narrativo do autor vai ao encontro da história que narra. É uma obra que pode ser lida "ao gosto do freguês", pois os capítulos foram compostos de forma autônoma e não há linearidade temporal. Cabe destaque na leitura de Vidas Secas o tempo psicológico. O universo de cada personagem, incluindo a cachorrinha Baleia.

O autor pertence à segunda fase do modernismo brasileiro, é um dos grandes nomes do chamado Regionalismo. Não colocarei muitas informações para não atrapalhar a leitura, mas fica aqui a dica de leitura da semana.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Romantismo e a Religiosidade em "Cântico do Calvário" de Fagundes Varela

Segue minha análise do poema "Cântico do Calvário", de Fagundes Varela, apresentada para conclusão da disciplina de Literatura Brasileira III do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Reflexões e análise

Dono de uma personalidade dualística, Luís Nicolau Fagundes Varela despertou e desperta em seus críticos e leitores sentimentos também dualísticos. Como poeta do Romantismo brasileiro, pertence à segunda geração, porém também apresenta características da terceira. Em sua vida e obra é possível ver os traços marcantes dos poetas deste período: era boêmio, inquieto, foi vítima do álcool e morreu jovem, com apenas 33 anos de idade; passou também por um período em que o espírito religioso tomou conta de sua construção poética, como é o caso do poema em questão, Cântico do Calvário, escrito em um período de profundo sofrimento após a perda de seu primogênito que contava apenas com 3 meses de vida.

Sobre seus críticos pode-se dizer que não eram unânimes quanto à importância de Fagundes Varela para o cenário literário brasileiro, como diz Orna Messer Levin na introdução da obra Cantos e Fantasias e Outros Contos, organizado pela autora:

No quadro geral da poesia brasileira, Fagundes Varela (1841-18750) ocupa uma posição de trânsito situando-se ao lado da segunda geração romântica, em relação à qual foi visto ora como um mero seguidor, ora como crítico, consciente dos excessos e desgastes da lírica sentimental e cujo mérito maior teria sido o de preparar o caminho para os vôos elevados da poesia condoreira.

E sobre a obra do autor, diz Levin:

(...) podemos reconhecer a irregularidade do poeta, nem sempre feliz nas escolhas, entregue a uma sentimentalidade crônica. Sobressai, no entanto, o aspecto polivalente de sua escrita, que evolui de maneira desigual, avançando e retrocedendo com passos e contrapassos.

A unanimidade da crítica se dá apenas em relação ao poema em análise neste trabalho. Sobre ele, dizem os críticos ser um dos mais belos poemas da literatura brasileira, concordando também que é o mais célebre de Fagundes Varela. Diz Manuel Bandeira:

(...) uma das mais belas e sentidas nênias da poesia em língua portuguesa. Nela, pela força do sentimento sincero, o poeta atingiu aos vinte anos uma altura que, não igualada depois, permaneceu como um cimo isolado em toda a sua poesia.

Se o Romantismo é “o primado exuberante da emoção, imaginação, paixão, intuição, liberdade pessoal e interior” como diz Vagner Camilo, temos então em Cântico do Calvário uma obra romântica por excelência. O filho falecido é apresentado por meio de um léxico sublimizante já nos primeiros versos: pomba, estrela, messe, idílio, glória, inspiração e pátria. Nesta mesma estrofe, alguns versos podem ser analisados sob a perspectiva bíblica, como os versos de 1 a 3:

Eras na vida a pomba predileta

Que sobre um mar de angústias conduzia

O ramo da esperança.

Estes versos podem ser vistos como referência ao Dilúvio, narrado no livro do Gênesis (capítulo 7, versículos de 1 a 14). Após as chuvas pararem, Noé deseja saber se as águas já baixaram e solta um corvo e uma pomba para fora da arca. O corvo, que faz seu ninho nos altos picos das montanhas volta para a arca, e a pomba, que não encontra lugar para pousar as patas também retorna. Após sete dias, Noé envia novamente a pomba que retorna à arca com um ramo novo de oliveira no bico, sinal de que a vida poderia ser reiniciada.

Continuando nesta estrofe, podemos notar o que pode ser mais uma referência bíblica nos versos 3, 4 e 5:

Eras a estrela

Que entre as névoas do inverno cintilava

Apontando o caminho para o pegureiro

De acordo com o Evangelho de Mateus (capítulo 2), que narra a visita dos magos à Jesus; vindos do oriente eles seguem uma estrela e chegam ao local de nascimento do Menino. Também em relação ao termo “pegureiro”, que segundo o Houaiss quer dizer “pastor”, pode referir-se ao Evangelho de Lucas; quando o evangelista narra o nascimento de Jesus no capítulo 2, versículos de 8 a 12, fala de pastores que estavam nos campos das proximidades da manjedoura e que foram avisados por anjos sobre o nascimento.

Porém, opondo-se à imagem sublimada do filho, há uma quebra da sequência harmônica, como diz Levin, e que enfatiza a fatalidade das ações:

Pomba – varou-te a flecha do destino!

Astro – engoliu-te o temporal do norte!

Teto – caíste! – criança, já não vives!

Orna Levin faz uma ótima reflexão a respeito desta quebra:

A síntese decorrente da justaposição de imagens fortes de queda tenta reproduzir o efeito da interrupção abrupta da energia vital ascendente, ao qual o fluxo das metáforas iniciais aludia. A morte, uma vez reproduzida enquanto corte, deixa de ser apenas marca de uma existência física interrompida para se configurar como um motivo de reflexão poética, permitindo que o autor passe em revista a própria ideia de inspiração.

Não temos nestes versos um simples transbordamento de sentimentalismo, da dor de um pai que acaba de perder seu filho e procura desabafar do modo que lhe parece melhor. A angústia, a tortura e a dor da ausência do ser amado transforma-se em força motora na criação de uma elegia, onde a estética romântica atinge seu auge, não apenas nas metáforas mas também no encadeamento dos versos e no jogo sintático utilizados pelo poeta.

Seguindo esta linha de reflexão, vale também destacar os versos 21 a 25:

São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer – gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! – Sede benditas!

Refletindo sobre a importância da Natureza para o poeta romântico, Camilo diz que ela “converte-se em palco de confissões e lamentos da alma ferida”. É o local de encontro do poeta consigo mesmo, seu locus amenus espiritual, onde chora e lamenta aquilo de que foi privado. Nos versos acima as palavras noite e ermos são muito utilizadas neste período como metáfora de sofrimento, de obscuridade em relação aos sentimentos. Mas é como se para Varela houvesse uma esperança. Apesar de dizer que os fachos da noite estão mortos para ele, o poeta também acredita que as lágrimas santas o ajudarão a caminhar no ermo. Voltando à Bíblia, no livro do profeta Isaías, capítulo 45, versos de 1 a 8, temos a narração da profecia sobre Ciro, rei persa, que marchou vitoriosamente sobre a região do Oriente Médio por volta do ano 538 a.C. Iahweh chama Ciro de “seu ungido” criando assim um paradoxo, já que este epíteto é utilizado aqui para nomear um soberano estrangeiro que não conhece a Iahweh. O fato é que nos versos finais deste trecho bíblico, temos Iahweh dizendo que tudo criou, luz e trevas, que assegura o bem-estar e a desgraça; ordena ainda que o orvalho desça dos céus e que da terra brote a felicidade.

A felicidade de Fagundes Varela em ser pai pode ser mensurada nos versos 82 a 87:

Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor...

A metáfora utilizada pelo poeta adquire uma força grandiosa se observarmos o trecho bíblico que nos conta a história de Maria Madalena, ou Maria de Magdala como também é conhecida. No Evangelho de Lucas, Maria, chamada Madalena é aquela de cujo corpo haviam sido expulsos sete demônios. Ela pertencia ao grupo das mulheres que acompanhavam Jesus e seus apóstolos e aparece no capítulo 8 deste evangelho, versos de 1 a 3. É uma personagem de grande importância na narrativa sobre a paixão e morte de Jesus Cristo, tanto que é mencionada nos três Evangelhos sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas – e também no Evangelho de João. Esteve aos pés da cruz juntamente com Maria, a mãe de Jesus. Mas por que o poeta diz “grata como o chorar de Madalena aos pés do Redentor”? Há um discurso muito comum que atribui a Maria Madalena a passagem da prostituta que é perdoada por Jesus no capítulo 7, versículos 36 a 50 do Evangelho de Lucas, porém não há nenhuma menção ao nome desta mulher que “demonstrou muito amor”; neste trecho Jesus diz a Simeão: “(...) seus numerosos pecados lhe serão perdoados porque ela demonstrou muito amor. Mas aqueles a quem pouco foi perdoado mostra pouco amor”. Na sequência bíblica vemos a referência a “Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios” (Lucas cap. 8, vers. 2); é senso comum entre os estudiosos da bíblia que as doenças e possessões demoníacas eram vistas pelos judeus como punição pelos pecados cometidos; este pecado poderia ter origem no próprio enfermo ou em algum de seus antepassados – consideravam que o pecado era transmitido para as gerações seguintes –, o que fazia de Madalena uma pecadora grave, pois não foi apenas um demônio que saiu de seu corpo e sim sete! E ela demonstra tanto amor que segue Jesus até sua cruz, o momento em que até os seus discípulos, exceto João, o abandonam por medo de sofrer a mesma condenação; chora a perda do Mestre, aquele que lhe devolveu a dignidade. Vale destacar também que Madalena foi a mensageira da ressurreição de Jesus para os discípulos.

Estes versos que se referem a Madalena podem, partindo de uma livre interpretação dos fatos, ser um sinal do arrependimento do poeta, cuja vida foi desregrada do ponto de vista da moral da sociedade de sua época, fortemente marcada por valores cristãos-católicos. Talvez o nascimento do filho tenha tocado de tal forma Varela que ele realmente se sentiu uma Madalena aos pés do Redentor. Friso aqui a palavra Redentor. O poeta poderia ter escrito “aos pés de Jesus”, mas prefere utilizar o termo “Redentor” talvez porque acredite que ele realmente possa redimir os pecados. Não há muitos textos para embasar esta perspectiva, mas vale destacar o que diz Orna Levin quando fala sobre a obra Anchieta:

(...) o fato é que seu vício se incorporou ao imaginário dos leitores, e nem o domínio dos processos poéticos que demonstra nesta redação, nem a erudição bíblica, quiçá motivada pela necessidade de uma reconciliação pela fé, atenuaram-lhe a imagem degradante de poeta alcoolizado e sem rumo. Na tentativa de restaurar a má fama e divulgar a conversão do irmão, Ernestina Varela dedicou-se a reunir os esparsos de Cantos religiosos (1868) e transferir a ênfase crítica para o veio místico que atravessa a religiosidade romântica de sua obra.

Podemos encontrar várias outras referências religiosas e bíblicas em Cântico do Calvário que mereceriam uma análise mais aprofundada, incluindo as que aqui já foram abordadas. O próprio título do poema é uma referência direta ao Calvário de Jesus Cristo (Lucas cap. 23, vers. 26 a 32), cujo cântico entoado só pode ser de dor e lamento, assim como o cântico do poeta.

Cabe um último destaque para os quatro versos finais do poema:

Quando a morte fria

Sobre mim sacudir o pó das asas,

Escada de Jacó serão teus raios

Por onde asinha subirá minh’alma.

Temos uma referência explícita à escada que aparece no sonho de Jacó, narrada no livro do Gênesis, capítulo 28, versículos 10 a 22. Após reclinar a cabeça sob uma pedra, Jacó adormece e em sonho vê uma escada que se ergue da terra e cujo topo atingia o céu. Por ela os anjos de Deus subiam e desciam. Neste mesmo sonho, Iahweh aparece diante de Jacó, também chamado de Israel e dá a ele e sua descendência aquela terra. A escada de Jacó é vista por muitos biblistas como uma prefiguração da morte: por ela os anjos descem e por ela devem os homens subir ao encontro da vida eterna. Com certeza a escolha desta imagem sublimada da morte, não foi à toa para fechar o poema. Se de fato ele se converteu ou se apenas escreveu o poema movido por um profundo sentimento de dor pela perda do filho amado, pode-se perceber nestes versos finais a esperança de salvação que toca o poeta e que o faz crer que reencontrará o filho que já está nos braços do Criador naquele momento do qual nenhum ser humano poderá se livrar: a morte.


Referências bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2003.

CAMILO, Vagner. Revisão, atualização e atualidade do Romantismo(apostila). São Paulo: CENP/SEE/USP (Fund. Vanzolini), 2003.

HOUAISS, Antonio. Mini Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

LEVIN, Orna Messer (org.). Introdução. Cantos e fantasias e outros contos. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Cântico do Calvário

Segue abaixo o poema "Cântico do Calvário", de Fagundes Varela. Na próxima postagem está minha análise apresentada para a disciplina de Literatura Brasileira III, do curso de Letras da USP.


Cântico do Calvário


À Memória de Meu Filho
Morto a 11 de Dezembro de 1863.



Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória – a inspiração – a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! no entanto,
Pomba – varou-te a flecha do destino!
Astro – engoliu-te o temporal do norte!
Teto – caíste! – criança, já não vives!

Correi, correi, ó lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer – gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! – Sede benditas!
Ó filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr do sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!

Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!...

Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n'água o lenho do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte!
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel?... E tudo embalde!
A vida parecia ardente e douda
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n'alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!

Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave;
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta!
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!

Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícía mimosa rebentada à sombra!
Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Ó quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!

Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonias! – O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!

Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, – nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixastes!
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo: — teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, – mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!

Ai! doudo sonho!... Uma estação passou-se,
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!...

Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, – sinto o aroma
Do incenso das igrejas, – ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A próxima aldeia


Meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que - totalmente descontados os incidentes desditosos - até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa".

Franz Kafka

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Momento num café

Publico aqui parte de meu trabalho de aproveitamento na disciplina Literatura Brasileira I. É uma análise/interpretação do poema "Momento num café", de Manuel Bandeira.


Momento num café

1 Quando o enterro passou
2 Os homens que se achavam no café
3 Tiraram o chapéu maquinalmente
4 Saudavam o morto distraídos
5 Estavam todos voltados para a vida
6 Absortos na vida
7 Confiantes na vida.

8 Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
9 Olhando o esquife longamente
10 Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
11 Que a vida é traição
12 E saudava a matéria que passava
13 Liberta para sempre da alma extinta.


Se “desentranhar” é um termo dominante na poesia de Manuel Bandeira, este poema, retirado de uma cena cotidiana, pode muito bem ser esmiuçado sob esta ótica. Um simples cortejo sendo observado por homens num café, algo que passa tão despercebido numa grande cidade, toma uma dimensão metafísica, com um profundo sentimento de interioridade, onde pode-se pensar sobre a dualidade vida / morte.
Mas, se o assunto de que trata o poema é o enterro, porque seu título não remete a este fato? Será mesmo que o enterro é o cerne do que o poeta quis retratar nestes versos?
O título Momento num café traz à tona o ambiente da rua, de onde Bandeira busca inspiração para grande parte de sua obra. Das coisas mais banais do dia-a-dia é que nasce sua surpreendente reflexão sobre temas tão caros ao ser humano. Neste poema ele se põe como observador dos fatos, como alguém que, mais do que ver a superfície dos acontecimentos, consegue enxergar o movimento de introspecção e – por que não? – meditação do homem acerca da morte. Narra os fatos como num conto ou como quem narra uma história: “Quando o enterro passou”... não há data, não há hora. A cena está suspensa no tempo; utiliza também os verbos no passado para dar esta sensação de fatos já ocorridos, mas sem especificar o “quando”: passou, achavam, tiraram, saudavam, estavam, descobriu, sabia, saudava e passava.
Os três primeiros versos mostram um gesto incomum hoje em dia nos grandes centros urbanos, mas que ainda perdura no interior. Momentos considerados respeitosos como uma refeição, um velório ou mesmo a passagem de um cortejo, são marcados por esta atitude: tirar o chapéu. Mas o que chama a atenção é o advérbio empregado pelo poeta no terceiro verso: maquinalmente; os homens tiram seus chapéus como máquinas, talvez mais por convenção social que propriamente respeito para com o morto. Isso se confirma no quarto verso: Saudavam o morto distraídos. Não há comprometimento, não há nada que una os homens daquele café com o morto que passa. Por que o saudavam distraídos? Podemos tentar responder com os versos cinco, seis e sete. Bandeira enfatiza o termo “vida” repetindo-o três vezes nos últimos três versos desta primeira estrofe:

Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

O poeta procura fixar esta palavra em nossa cabeça ou quer mostrar que naquelas cabeças presentes naquele café não havia espaço para a morte. Todos os pensamentos estavam concentrados e esperançosos na vida. Era apenas mais um morto, mais um entre tantos cortejos. Os verbos no passado também ilustram esse passado que passava diante dos olhos daqueles espectadores.
O que faz com que este enterro não seja apenas mais um entre tantos outros? O que há nesta cena que chama a atenção do nosso narrador? O poeta percebe que há um entre os homens ali presentes que provavelmente não tirou seu chapéu de forma programada.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado

Mais do que descobrir alguma coisa, o homem se descobriu. Não foi rapidamente, mas num gesto largo e demorado, como o verso do poeta; é como se uma eternidade coubesse no tempo da passagem do esquife. O advérbio longamente, utilizado no verso nove, auxiliado pelo verbo olhar no gerúndio, demonstra de modo claro esta sensação de longevidade, de algo duradouro. Uma fração de segundos que dura o suficiente para que aquele homem perceba um algo a mais naquilo que vê. Ele não é um simples observador e sim participante da cena: o poeta observa o homem que observa o caixão do defunto que passa à sua frente.
Os dois versos que se seguem vão apresentar a palavra vida novamente, não como um termo passivo como nos versos cinco, seis e sete, e sim como um termo carregado de significação em parceria com o verbo ser no presente do indicativo. O homem, personagem da ação sabia que a vida é: 1) uma agitação feroz e sem finalidade; 2) traição. O poeta não utiliza termos dóceis para dar significado à vida. Além de machucar (ser feroz) e não ter um objetivo ou algo a ser alcançado (sem finalidade), a vida é desleal (traição). A morte, apesar de ser a única certeza do ser humano, é um fato do qual não se sabe data e hora, muito menos o que esperar – se é que há algo a esperar – após sua chegada. É traição porque engana o ser humano, não levando em conta seus projetos.
Sabendo desta efemeridade da vida, que passa como o sibilar do vento e do poema, ou que se acaba tão rápido como uma xícara de café, aquele homem saudava, conscientemente, a matéria que passava, matéria que foi liberta para sempre da alma extinta. Além de usar um verbo no particípio, indicando uma ação que está plenamente concluída, o poeta ainda reforça ideia com o para sempre. Não é apenas agora, é ad aeternum.
Este poema e todos os presentes em Estrela da Manhã apresentam um Manuel Bandeira “já liberto do ‘gosto cabotino da tristeza’ e assim desperto para o mundo em torno”, segundo Davi Arrigucci Jr. Sua maestria em retirar da humildade cotidiana o material para sua poesia, de tirar das entranhas dos fatos mais banais aquilo que dará sentido não apenas à sua obra, mas também à sua vida, faz-nos ver como um poeta, vivendo à sombra da morte certa, consegue olhar para ela não com medo, mas com a bravura do herói diante daquilo que deve enfrentar.

terça-feira, 16 de março de 2010

Meu primeiro ensaio

Hoje decidi colocar algo que eu produzi. Este blog é também de prosa, portanto vou publicar o primeiro ensaio que escrevi por questão da conclusão da disciplina de Estudos Literários no segundo semestre de 2009. O ensaio é baseado no conto "Cortejo em Abril", de Zulmira Ribeiro Tavares e fala sobre o cortejo de Tancredo Neves. Dei o nome ao ensaio de "Mídia, mito e nome em Cortejo em Abril". Segue o dito:

"Ao som de Coração de Estudante, de Milton Nascimento, milhares de brasileiros viram de suas casas a passagem do cortejo daquele que detinha em si, os sonhos e expectativas de um povo; daquele que, mais que um presidente, trazia consigo o epíteto de “homem santo”. Santo ou não, não está mais entre nós, ao pó voltou e ao pó levou as esperanças daqueles que, após terem seus filhos dados como desaparecidos pelos militares, apostavam em um político que nem sequer colaboraram para eleger.
Pode soar estranha a adoração de um povo a um presidente eleito por voto indireto, que mal conheciam e que havia despontado na mídia há pouco tempo, mas olhando para o contexto pelo qual passava o Brasil, há de se entender o motivo de tanta empolgação com a eleição daquele mineiro de São João Del Rei. Havia uma áurea de esperança, algo metafísico e mítico naquela escolha presidencial.
Desde que sua doença se tornou pública, houve muitas contradições nas informações divulgadas pela imprensa, como relata o jornalista Antônio Britto, porta-voz oficial do novo governo, no livro Assim morreu Tancredo. Mas o que o povo sabia? Apenas o que era divulgado pela mídia.
Treze anos após a morte de Tancredo Neves, é possível olhar para o passado e recriá-lo, temperando-o cada um a seu modo, como fez Zulmira Ribeiro Tavares, em Cortejo em Abril.
Desde 1985, 1998 até 2009 é possível observar os efeitos das notícias midiáticas no cotidiano de um povo. Como criar um mito? Muito simples: pegue um cidadão, torne-o popular; adicione um pouco de tragédia com um leve toque de martírio. Leve ao forno, ou melhor, ao povo regado a ótimos jornalistas com o dom da retórica. Está feito!
Parece ser isto o que acontece com Tancredo Neves. Ele era apresentado como aquele que viria para mudar o país, mudar a sorte de uma população marcada por anos de ditadura militar, opressão, falta de voz e ausente de muitos direitos.
O que o povo brasileiro esperava dele? O Consertador de Tudo parece responder a esta pergunta em suas falas. “Santo Homem”, assim mesmo, com letras maiúsculas, é constante quando fala sobre o presidente, praticamente não o chama pelo nome. É constante o uso de adjetivos que canonizam Tancredo. Vale lembrar que antes da institucionalização da Canonização pela Igreja Católica, os santos eram escolhidos e aclamados pelo povo (influenciados ou não). Pela maciça presença do povo no cortejo e pelas conversas dos personagens, parece mesmo que houve uma “canonização popular” do Santo Tancredo de São João Del Rei.
Mas o que dizer do dia da morte do Santo Homem?
21 de abril de 1792, dia da morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, “Mártir da Independência”, nascido numa vila na região de São João Del Rei, em Minas Gerais. 21 de abril de 1985, dia da morte de Tancredo de Almeida Neves, que, na boca da senhora do cabelo azul, também foi martirizado. O martírio implica morrer por uma causa, por um ideal. Por qual causa morreu Tancredo? Pela democratização do país? Pela doença que se apossou de seu corpo próximo à sua posse? Ou por algo que ainda não está bem esclarecido, como pensam alguns daqueles que vivenciaram aquele período? O Arquiteto parece duvidar desta suposta santidade e deste martírio.
O mito pode ter também o objetivo de criar uma identidade nacional. Tiradentes é aquele que representa o ideal brasileiro de luta contra a exploração, em favor dos direitos do homem. Sua imagem foi por muito tempo associada à outra imagem bem difundida na cultura ocidental, a de Jesus Cristo, com barba e cabelos longos. Esta imagem de Tiradentes era propagada – e talvez ainda seja – nos livros de História das escolas brasileiras. Por que associar a morte de Tancredo Neves à de Tiradentes? Talvez porque o Brasil precisasse de um mito naquele momento em que tentava sair da escuridão da Ditadura Militar. Para o Arquiteto, as comemorações aconteceriam juntas para que uma desse mais força à outra.
Coincidência ou não, seu cortejo (que ocorreu no dia 22 de Abril, uma segunda-feira na qual se passa o conto, data do descobrimento ou achamento do Brasil) passou por ruas de nomes significativos na cidade de São Paulo, enquanto era conduzido ao Aeroporto de Congonhas: Avenida Brasil, Monumento às Bandeiras, Rua Pedro Álvares Cabral, Obelisco aos Mortos de 32 (homenagem aos mortos na Revolução Constitucionalista de 1932). “Tudo são datas e nomes por esses lados do mundo”, diz o Arquiteto. Talvez por ser instruído, conseguisse perceber a dimensão destes signos naquele momento. Mas para o Consertador de Tudo, “Deus quis!”.
Aliás, para ele, tudo está envolto numa aura sacra. Os boletins informando sobre a saúde do presidente são como, no rádio, a hora da Ave-Maria. Quando segue rumo ao cortejo, imagina o Santo Homem reinando entre os anjos. Antes de Tancredo se destacar na imprensa, era o período em que “ninguém sabia de sua santidade”. Suas imagens nas fotos mostravam seu olhar diferente, mas “não se sabia ainda que era santidade”. Os adjetivos que canonizam o presidente aparecem por aproximadamente trinta vezes, de diversos modos, como que para mostrar qual era a visão do povo sobre ele.
Mas por que a visão do Consertador de Tudo pode ser associada à visão do povo? Ele é apresentado como uma espécie de estereótipo do trabalhador brasileiro. É um trabalhador informal, para o qual nem mesmo um feriado nacional é motivo para descanso; mora num bairro simples, na Vila Uberabinha, e usa macetes para “subir na vida”, dizendo que mora “para os lados de Moema”, uma das regiões nobres da cidade de São Paulo. É aquele que, para sobreviver na grande cidade, faz todo tipo de serviços, todo tipo de consertos. Não se sabe ao certo sua idade. Ora parece mais novo, ora mais velho; coisa comum entre as pessoas que batalham diariamente pela sobrevivência e não tem tempo para si, em um mundo onde outros da mesma idade cuidam da saúde e da aparência. Realmente, quantos anos ele tem? Qual é seu nome? Essa ausência de identidade o identifica com milhares de brasileiros que são nomeados simplesmente pelo que fazem. O Arquiteto, que também não tem nome, o chama de “uma pessoa” quando recebe a visita do vizinho, que teve a honra (ou não) de ter a “voz nomeada”, Rodolfo.
Arquiteto e Consertador de Tudo são aqueles com quem podemos nos identificar: ora com um, ora com o outro. Ora com os dois. Eles denotam a identidade do brasileiro, aquele que tem sua opinião massificada pela mídia e aquele que duvida da mesma. Aquele que acredita no que ouve e aquele que cria uma história para alfinetar o preconceito do vizinho racista. Aquele que se une ao povo para ver o cortejo do mártir passar e dizer que foi testemunha ocular e aquele que assiste de casa, pela televisão, porque o ângulo é melhor.
Os personagens parecem retratar cada brasileiro, com seu modo de agir, de ver a vida e sua posição na sociedade, com características genéricas, mas que até hoje marcam tipos: o Consertador de Tudo, sua mulher, o Arquiteto, a senhora do cabelo azul e o vizinho. Cada um, à sua maneira, demonstra uma reação diante do fato nacional. Entre a senhora e o Tudo, há um sentimento de fraternidade criado pela morte de Tancredo (ou pela morte que a mídia criou de Tancredo), que ocasionou uma comoção nacional: “uma mulher com a qual ele nunca pudera imaginar que haveria de estar passeando pelo Ibirapuera, conversando, ela devia ter saído de um dos casarões da própria avenida”, e não da Vila Uberabinha, portanto não pertenciam à mesma classe social.
Talvez a ausência de nomes se dê porque os nomes não podem explicar tudo o que contêm. Os adjetivos tentam fazer este trabalho, mas não dão conta. Não de modo completo. Substituir o nome da pessoa pelo que ele faz ou por qualificações é um modo de talvez tentar conter dentro do signo, com seu significado e significante, aquilo que ele representa no contexto social. Provoca um afastamento do personagem como único para a entrada num universo maior, como no caso da mulher do Tudo, que aparece poucas vezes, mas também retrata tantas outras mulheres do lar que apenas servem a seus maridos. Que coisa dói dentro do nome que não tem nome que conte nem coisa pra se contar?, já disse Leminski.
A mídia mitifica e nomeia; mostra a vida como é e como não é, mas também como poderia ser. Mostra fato, mostra foto, mostra cortejo, mostra gente, mostra e mente. Mostra Consertador, mostra Arquiteto, mostra Tancredo, mostra Xuxa, mostra Pelé. E se houvesse televisão na época de Tiradentes, será que tudo seria diferente?"

Abraços e boa semana!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ridiculamente humana

"Se amar é fantasia, estou em pleno carnaval", dizia Vinícius de Moraes. Eu odeio o carnaval, mas vivo fantasiada, segundo Vinícius. Em meu misto de tédio, ódio e amor, sou ridiculamente apaixonada pela vida. Odeio e amo pessoas; alguém já disse que amor e ódio são duas faces da mesma moeda. Acho que esse alguém tem razão. Adoro o ócio, mas não consigo ficar um minuto parada e, como mulher ridícula que sou, faço várias coisas ao mesmo tempo. Enquanto escrevo este texto, estou assistindo a um filme, de ouvido ligado esperando a máquina de lavar parar para estender as roupas no varal e, enquanto espero uma luz do que escrever, vou dobrando as roupas já secas que acabei de recolher. Nunca disse que meu sonho é que gostaria de ter nascido na Idade Média e ser monge copista? Pois está dito! Mas nasci mulher, no século XX. Uma mulher ridiculamente perturbada e confusa, que ainda não sabe o que quer da vida, que apenas vive. Imersa num mundo de perguntas sem respostas e que deseja apenas escrever. E ler. E que acredita que um dia alguém irá ler o que escreveu. Já escrevi poesias e cartas de amor. Já fiz músicas que se perderam. Já li livros dos quais não me lembro. Tenho gostos duvidosos, mas são meus gostos. Ah... adoro futebol. Bem... abaixo está uma poesia ridícula de Fernando Pessoa. Um dia criarei coragem de colocar as linhas que escrevi aqui neste blog. Por enquanto, só este ridículo poeta que tinha crise de personalidade. Ah, sou ridiculamente irônica! .. rsrs... Grande Pessoa!

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Todas as cartas de amor

Álvaro de Campos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A vida é poesia

Após um longo e tenebroso inverno, digo, verão, volto a escrever alguma coisa (in)útil neste meu blog. Ainda não decidi se compro um carro ou um bote, já que moro em São Paulo; talvez os dois... talvez nenhum... talvez apenas uma bóia, é mais barata. Mas vou sobrevivendo em meio ao caos com os mais de 10 milhões de outros seres vivos desta cidade.

Acho que ainda é tempo de falar de projetos para este ano. Aliás, em fevereiro, já podemos perceber que nem tudo que planejamos para 2010 dará certo. Um mês já se passou e aquele regime, os exercícios, os estudos que iríamos começar em janeiro até agora não deram sinal de vida. Não façamos planos (façamos, mas não os falemos a ninguém), façamos de conta que tudo está sob controle, mesmo que não esteja.

Mas a vida é poesia e prosa. A vida é conto, é fábula. Quanto mais rápido se quer chegar, mais tempo se perde. Quanto mais esperto achamos que somos, mais tombos levamos.

Aprendi uma coisa em um curso que fiz não sei quando nem onde: "Todo mundo chega junto", aqui em São Paulo, principalmente. Não acredita? Experimente ultrapassar a senhorinha que está à sua frente de carro, andando a 20km/h em uma avenida movimentada. Mais à frente, você irá parar no semáforo. Adivinhe quem irá parar ao seu lado? Isso mesmo, a senhorinha. TODO MUNDO CHEGA JUNTO! Este deveria ser o mantra dos paulistanos!

Bem, chega de blá, blá, blá. Quero apenas deixar um poema de Baudelaire que talvez vocês já conheçam, mas que vale a pena ser lido novamente. Abaixo deixo também uma música que gosto muito.
Desejo a todos um excelente mês de fevereiro.



A uma passante


A rua ensurdecedora ao redor de mim agoniza.
Longa, delgada, em grande luto, dor majestosa,
Uma mulher passa, de uma mão faustosa,
Soerguendo-se, balançando o festão e a bainha;
Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, embevecido, inquieto como um extravagante,
Em seus olhos, o céu lívido onde se oculta o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que destrói.
Um clarão... depois a noite! - Beleza fugidia
Cujo olhar me faz subitamente renascer,
Não te verei senão na eternidade?
Alhures; bem longe daqui! Muito tarde! Jamais talvez!
Pois ignoro onde tu foste, tu não sabes onde vou,
Ah se eu a amasse, ah se eu a conhecesse!
(Tradução de Marco Antonio Frangiotti. In Baudelaire: Oeuvres Complètes)




Só tinha de ser com você - Elis Regina

http://www.youtube.com/watch?v=VONywcxEQqA&feature=related

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Democratização da cultura


Aumenta cada vez mais o número de sites de entidades e mesmo sites pessoais que disponibilizam obras que, talvez, a maioria de nós nunca teria acesso caso não estivéssemos na era digital. Se a internet é ou não a Biblioteca de Babel de Borges, difícil confirmar, mas a comparação é válida.
Podemos citar aqui diversos projetos de digitalização de acervos que estão democratizando o acesso à cultura e, direitos autorais à parte, penso que este caminho já não tem volta. Por que? Porque a livre circulação de cultura na internet não precisa pisar no direito autoral, mas novos meios devem ser criados, inclusive pelo Direito, para manter a integridade e a propriedade intelectual daquele que pensou e estruturou determinada obra, apesar de todo o conhecimento ser recriado, não surgindo nada do nada. Quem pode dizer que é autor 100% de uma obra, ou que escreveu cinco linhas sem ter tomado alguma palavra ou expressão de outrem? Eu nunca, principalmente neste texto!

Outro detalhe... quantas obras magníficas produzidas em diversas áreas do conhecimento não se multiplicam simplesmente porque as editoras não se interessam na republicação de novas edições!!!!

Mais uma defesa? Preservação da natureza! Nada como um bom monitor de computador para substituir o desmatamento (apesar de eu ter que confessar que prefiro um livro na minha mão a ler na tela do computador), mas para os ecologistas pregadores do armagedon é um grande argumento.
Bem, não entrarei a fundo nestes temas, quero apenas deixar alguns links de projetos que estão auxiliando na divulgação de grandes e raras obras. Não deixe de acessar:

* Domínio Público (Biblioteca digital do Governo Federal):

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp

* Brasiliana USP (Projeto da Reitoria da Universidade de São Paulo):

http://www.brasiliana.usp.br/apresentacao

* Biblioteca Digital Mundial (UNESCO):

http://www.wdl.org/pt/

* Acervo HBC - Música e literatura (Hermínio Bello de Carvalho):

http://www.acervohbc.com.br/Sobre.aspx

* TV Cultura :

http://www.tvcultura.com.br/40anos/memoria

domingo, 9 de agosto de 2009

Saudades, pai...


Hoje é dia dos pais. Alguns, como eu, já viram seus pais partindo antes da hora (nunca achamos que era o momento de eles partirem, por mais que digamos isso) mas a presença deles nesta terra foi tão marcante que é impossível não se lembrar deles ao ouvir uma música, uma história, ou, como no caso do meu pai, escutar um causo.
Neste mês completará 9 anos de sua ausência, e ainda é possível ouvir sua risada, seu assovio me chamando, suas piadas contadas mesmo quando a doença insistia em derrubá-lo. Foi presença constante em minha vida e, tenho certeza, na de meus irmãos também. Meus irmãos sempre contam a história do lanche de pernil, nos tempos em que ele tinha uma charrete e os buscava na escola. Lembro daqueles que iam confortá-lo em casa, dizendo que todo sofrimento tinha um propósito, que Deus sabia o porquê. Se Deus sabia ou sabe o porquê, vou questioná-lo quando estiver frente a frente com ele. Mas estes acabavam saindo confortados de casa, porque não encontravam um homem entregue às dores e às lamúrias e sim um lutador que, apesar de tudo o que a vida, o destino ou Deus tenha lhe tirado, não tirou seu bom humor e sua vontade de viver.
Pai, os almoços não são mais os mesmos sem você... o natal muito menos... tenho certeza de que disse muitas vezes que o amava, mas sei que poderia ter dito mais. Minha esperança é um dia poder encontrá-lo novamente. Apesar de não entender as coisas que se passaram na sua vida, não abandonei a Deus, mas vou questioná-lo mesmo assim. Você, pai, foi a imagem real de Deus na minha vida com seu modo simples de dizer as coisas e de viver.
Enquanto as lágrimas rolam pelo meu rosto, deixo aqui uma música, uma bela música, como as que você gostava de ouvir, em sua homenagem:

Naquela mesa - Nelson Gonçalves
Composição: Sérgio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim